El Niño pode aumentar risco de infarto e AVC durante ondas de calor; veja quem precisa redobrar os cuidados

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El Niño pode aumentar risco de infarto e AVC durante ondas de calor; veja quem precisa redobrar os cuidados Crédito: Imagem gerada pela IA

O avanço do El Niño pode trazer consequências que vão além das mudanças no clima. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, pode alterar os padrões de temperatura e chuva e favorecer eventos extremos. Em um cenário de aquecimento global, as ondas de calor também representam uma preocupação para a saúde, principalmente entre pessoas mais vulneráveis. 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima que o El Niño tenha cerca de 90% de chance de persistir até o fim do ano. Durante períodos prolongados de calor intenso, o organismo precisa trabalhar mais para manter a temperatura corporal. O esforço pode aumentar a sobrecarga sobre coração e cérebro, enquanto a perda de água e eletrólitos pelo suor favorece desidratação e outras alterações.

Calor pode alterar os batimentos cardíacos

Segundo o cardiologista Nilton Carneiro, do Hospital Santa Catarina – Paulista, quando a temperatura aumenta, o corpo amplia a circulação sanguínea na pele e a produção de suor para dissipar o calor. Esse mecanismo exige mais trabalho do coração, que pode acelerar os batimentos para ajudar a manter a pressão arterial. Ao mesmo tempo, a perda de água e eletrólitos, como sódio e potássio, pode favorecer desidratação e alterações do ritmo cardíaco.

Em pessoas que já apresentam limitações cardiovasculares, esse esforço adicional pode contribuir para o surgimento de eventos agudos. A desidratação também pode deixar o sangue mais concentrado, enquanto a perda de eletrólitos interfere na atividade elétrica do coração. Paralelamente, a dilatação dos vasos e o aumento da frequência cardíaca elevam a demanda de oxigênio do músculo cardíaco.

Em pessoas com aterosclerose, esse conjunto de fatores pode aumentar a preocupação com eventos como infarto e arritmias. Uma manifestação científica publicada no European Heart Journal em 2025 também apontou mecanismos como desidratação, aumento da demanda de oxigênio do coração e processos inflamatórios para explicar a relação entre calor extremo e problemas cardiovasculares. 

“Quando a temperatura sobe, o coração precisa trabalhar mais justamente em um momento em que a desidratação pode reduzir o volume circulante. Por conta disso, a perda de eletrólitos pode favorecer alterações do ritmo cardíaco”, alerta o cardiologista.

Quem precisa ter mais atenção? Alguns grupos são considerados mais vulneráveis aos efeitos do calor intenso.

Entre eles estão:

  • Idosos;
  • pessoas com insuficiência cardíaca;
  • pacientes com doença coronariana;
  • pessoas com histórico de arritmias;
  • hipertensos;
  • diabéticos;
  • gestantes;
  • crianças pequenas;
  • pessoas que utilizam diversos medicamentos.

Pacientes com doenças neurológicas também precisam de atenção especial, já que algumas condições podem comprometer mecanismos relacionados à sede, à regulação da temperatura, ao equilíbrio e à pressão arterial. Calor intenso também afeta o cérebro O coração não é o único órgão afetado pelas altas temperaturas. O cérebro também pode sofrer com a elevação da temperatura corporal e a perda de líquidos.

Segundo o neurologista Maurício Hoshino, do Hospital Santa Catarina – Paulista, a desidratação pode reduzir a perfusão cerebral, ou seja, o fluxo de sangue que chega ao cérebro. O quadro também pode provocar alterações no equilíbrio dos eletrólitos e favorecer a hemoconcentração.

Entre as manifestações neurológicas que podem se tornar mais frequentes ou graves durante períodos de calor estão AVC, crises epilépticas em pessoas predispostas, piora de sintomas da esclerose múltipla, alterações relacionadas ao Parkinson, confusão mental e piora cognitiva em pessoas com demência. As crises de enxaqueca também podem ser agravadas pela combinação de desidratação, dilatação dos vasos sanguíneos e exposição ao calor.

Golpe de calor é uma emergência

O neurologista alerta que o golpe de calor é a manifestação neurológica mais grave relacionada às altas temperaturas. O quadro pode provocar alteração do nível de consciência, convulsões, edema cerebral e outras complicações sistêmicas, exigindo atendimento médico imediato.

O AVC também merece atenção. Segundo o especialista, estudos apontam associação entre temperaturas elevadas e aumento da ocorrência de eventos cerebrovasculares, tanto isquêmicos, provocados pela obstrução de uma artéria, quanto hemorrágicos, relacionados ao rompimento de um vaso. Entre os mecanismos envolvidos estão desidratação, alterações da pressão arterial, problemas na função dos vasos sanguíneos, alterações da coagulação e processos inflamatórios.

Fumaça de queimadas pode agravar o risco

A qualidade do ar também pode se tornar um problema durante períodos de calor extremo, principalmente quando há queimadas. A fumaça contém partículas finas capazes de penetrar profundamente no sistema respiratório e desencadear respostas inflamatórias no organismo.

Esse processo pode afetar os sistemas cardiovascular e nervoso e favorecer um estado pró-trombótico, no qual o sangue apresenta maior tendência à formação de coágulos. Para pessoas mais suscetíveis, a combinação de calor intenso e poluição aumenta a preocupação com eventos cardiovasculares e cerebrovasculares. Uma revisão publicada em 2026 também destacou a interação entre altas temperaturas, poluição e eventos extremos como fatores capazes de agravar diferentes riscos à saúde.

Como se proteger durante o calor?

Os especialistas recomendam alguns cuidados para reduzir os efeitos das altas temperaturas:

  • Beba água regularmente, sem esperar sentir sede, respeitando eventuais restrições de líquidos determinadas pelo médico;
  • evite exposição direta ao sol nos períodos de maior calor;
  • reduza atividades físicas intensas durante os horários mais quentes;
  • prefira roupas leves;
  • mantenha os ambientes ventilados ou climatizados;
  • acompanhe a qualidade do ar durante períodos de queimadas;
  • não altere medicamentos por conta própria.

Pessoas que utilizam diuréticos ou anti-hipertensivos, por exemplo, não devem suspender ou modificar as doses sem orientação médica. Em algumas situações, pode ser necessária uma avaliação individualizada diante de sintomas como tontura, queda da pressão ou alterações de peso.

Veja os sinais de alerta

Alguns sintomas podem indicar que o organismo está sofrendo com o calor. Entre eles estão: Tontura, fraqueza, dor de cabeça, náuseas, cãibras, palpitações, falta de ar e queda da pressão. Já sinais como confusão mental aguda, sonolência excessiva, convulsões, desmaio, dor de cabeça intensa e persistente, alteração da fala, perda de força, dor no peito ou falta de ar importante exigem avaliação médica imediata.

“Calor intenso não deve ser encarado apenas como um desconforto. Em pessoas vulneráveis, ele pode representar um fator de descompensação de doenças já existentes. Por isso, hidratação, controle da exposição e atenção aos sinais de alerta são medidas de prevenção importantes”, finaliza o cardiologista Nilton Carneiro.

Fonte: Jornal Correio

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