Quando viver se torna difícil demais

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René Dentz*

Albert Camus começa O mito de Sísifo com uma afirmação desconcertante: o suicídio seria o único problema filosófico verdadeiramente sério. Antes de perguntarmos pelo conhecimento, pela verdade ou pela moral, haveria uma questão mais elementar: a vida merece ser vivida? Camus não estava fazendo uma defesa do suicídio. Ao contrário. Interessava-lhe compreender como continuar vivendo quando o mundo já não oferece respostas suficientes para nossas perguntas. O absurdo nasce justamente desse desencontro: desejamos sentido, enquanto o mundo permanece silencioso.

É necessário recuperar essa pergunta em nosso tempo. Mas acrescentando outra: quando tantas pessoas começam a considerar que viver se tornou insuportável, estamos realmente diante apenas de dramas individuais?

Uma sociedade na qual muitas pessoas desistem da vida é também uma sociedade que precisa perguntar sobre suas próprias formas de adoecimento. Vivemos cercados de discursos sobre desempenho, felicidade, produtividade e sucesso. Precisamos trabalhar melhor, envelhecer melhor, cuidar melhor do corpo, administrar emoções, construir relacionamentos satisfatórios e ainda demonstrar que estamos felizes. O fracasso, nesse universo, parece sempre individual. Se você não conseguiu, faltou alguma coisa em você. Estamos produzindo existências excessivamente cansadas.

Quando alguém pensa na própria morte, nem sempre deseja simplesmente deixar de existir. As fantasias suicidas podem conter sentidos inconscientes muito diferentes. A morte pode ser imaginada como descanso, interrupção da angústia, desaparecimento de uma dor ou reencontro impossível com alguém que foi perdido. Pode também surgir a fantasia de finalmente ser percebido: “quando eu não estiver mais aqui, compreenderão o quanto sofri”.

Em algumas situações, aparece ainda uma dimensão dirigida ao outro. O desaparecimento pode ser fantasiado como mensagem, acusação, vingança ou produção de culpa naqueles que permanecem. Em outras, destruir o corpo pode representar inconscientemente uma tentativa desesperada de eliminar algo de si considerado intolerável.

Isso não significa que alguém formule conscientemente tais pensamentos. O inconsciente não funciona como um planejamento racional. Justamente por isso, explicar um suicídio por um único acontecimento – uma separação, uma perda, uma dificuldade financeira, um conflito familiar – quase sempre é insuficiente. O acontecimento recente pode ser apenas o ponto em que uma longa história de sofrimento encontrou seu limite.

Essa compreensão é particularmente importante para aqueles que ficam. Depois de um suicídio, familiares e amigos frequentemente constroem um tribunal interior: “Eu deveria ter percebido”; “por que não liguei?”; “se tivesse feito alguma coisa diferente…”. Entretanto, ninguém possui acesso integral ao sofrimento do outro. Podemos amar profundamente alguém sem conhecer todas as regiões de sua vida psíquica. A culpa dos sobreviventes não pode transformar o luto em uma condenação perpétua.

Também precisamos olhar para as formas contemporâneas pelas quais a dor encontra expressão. Há jovens que ferem o próprio corpo para aliviar uma angústia que ainda não conseguem transformar em palavras. A automutilação não deve ser automaticamente confundida com tentativa de suicídio, mas nunca deve ser banalizada. O corpo pode tornar-se a superfície sobre a qual se escreve aquilo que não conseguiu ser dito.

As redes sociais introduzem aqui uma questão nova. Imagens, relatos e práticas circulam rapidamente, produzindo identificação e repetição. Jovens distantes passam a apresentar formas semelhantes de ferir o corpo.

O sofrimento encontra uma comunidade, o que pode oferecer acolhimento, mas também pode normalizar comportamentos autodestrutivos. O algoritmo não distingue facilmente aquilo que deve circular daquilo que deveria encontrar cuidado.

Há ainda outro silêncio perigoso: o uso inadequado de medicamentos. Doses superiores às prescritas, automedicação, acesso indiscriminado e combinações com álcool ou outras substâncias aumentam riscos. Cuidar da saúde mental exige também responsabilidade na prescrição, no acompanhamento e no acesso às medicações.

Por fim, precisamos aprender a reconhecer mudanças: isolamento intenso, desesperança, falas recorrentes sobre desaparecer ou não fazer falta, abandono de projetos, despedidas incomuns, automutilação, aumento do uso de substâncias e mudanças bruscas de comportamento merecem atenção. Perguntar sobre sofrimento e pensamentos suicidas não significa incentivar alguém a morrer. Significa abrir uma possibilidade de palavra. Talvez a questão ética fundamental esteja justamente aí.

* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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