Fim da escala 6×1: quem paga a conta no varejo?

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Imagem: Envato

o debate sobre o fim da escala 6×1, há uma questão que recebe menos atenção do que deveria: quem pagará a conta dessa mudança? No varejo, a resposta é relativamente simples. Parte desse custo será absorvida pelas empresas. Outra parte chegará ao consumidor. Em muitos casos, pelos dois lados da equação.

Antes de discutir a conta, convém dimensionar o setor que vai recebê-la. O varejo é uma das maiores engrenagens da economia brasileira e um de seus principais empregadores. Só o comércio varejista responde por mais de 7 milhões de empregos formais, figurando entre os setores que mais contratam com carteira assinada no País. Para se ter ideia desse peso, o varejo alimentar, sozinho, faturou cerca de R$ 1,1 trilhão em 2025, o equivalente a aproximadamente 9% do PIB nacional. Quando se fala em varejo, portanto, não se trata de um segmento qualquer, mas de um dos pilares que sustentam o emprego e a renda no Brasil. É justamente por isso que qualquer mudança em suas regras de trabalho merece atenção redobrada.

A discussão sobre qualidade de vida e condições de trabalho é legítima e necessária, mas existe uma diferença importante entre reconhecer que o modelo atual precisa ser aperfeiçoado e acreditar que uma mudança legal, por si só, será capaz de resolver um problema complexo.

O varejo brasileiro não é composto apenas por grandes companhias com elevada capacidade de absorver custos. É um setor formado majoritariamente por micro e pequenas empresas, com margens apertadas, operação durante sete dias da semana e forte dependência de mão de obra. É o mercadinho da esquina, a farmácia que abre aos domingos e a loja que depende do movimento de sábado.

Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Relatório do BTG Pactual projeta que, sem medidas mitigatórias, o Ebitda do varejo pode cair 9,5% com a implementação das novas regras. Nas farmácias, a perda estimada chega a 13,6%. Já um estudo do Sindilojas-SP, com base em dados da Rais de 2024, calcula que o impacto nos custos operacionais do comércio varejista somente na cidade de São Paulo pode alcançar R$ 2,4 bilhões por ano, considerando que 87,5% dos trabalhadores do setor cumprem jornada de 44 horas semanais. A Confederação Nacional do Comércio estima um impacto potencial de R$ 122 bilhões para o comércio e de R$ 235 bilhões para o setor de serviços.

Esses números não representam uma defesa de interesses empresariais, mas sim projeções técnicas sobre os efeitos do aumento do custo da hora trabalhada sem redução proporcional dos salários.

Portugal oferece uma das experiências mais próximas da proposta em discussão no Brasil. Em 1996, o País reduziu a jornada de 44 para 40 horas sem corte salarial e sem compensação às empresas. O custo da hora trabalhada aumentou 6%, o emprego nas empresas afetadas caiu 2%, as vendas recuaram 4% e o total de horas trabalhadas diminuiu 9%. A produtividade por hora cresceu 4,4%, mas não foi suficiente para compensar integralmente os impactos da mudança.

Também é importante considerar o outro lado da discussão. Um estudo do Instituto de Economia do Trabalho (IZA), da Alemanha, que analisou experiências na França, Itália, Bélgica e Eslovênia, não encontrou impactos significativos sobre emprego ou PIB após a redução da jornada. O próprio levantamento, porém, chama a atenção para um aspecto relevante: os melhores resultados ocorreram nos países e empresas em que a mudança foi implementada de forma gradual e negociada. Isso sugere que o desafio não está apenas na redução da jornada, mas também na forma como ela é conduzida.

Reduzir a jornada de um analista de TI que trabalha em home office é diferente de reduzir a jornada de uma equipe de supermercado. Setores intensivos em mão de obra, como comércio, serviços, turismo, transporte, saúde e logística, enfrentam desafios específicos. No varejo, a demanda continua concentrada nos fins de semana, justamente nos períodos de maior faturamento, o que torna a reorganização das escalas um desafio operacional e financeiro.

Outro ponto que merece atenção é o efeito da medida sobre o mercado de trabalho. O professor Hélio Zylberstajn, da USP, alerta que o aumento do custo da mão de obra pode estimular a substituição de trabalhadores mais experientes, geralmente, mais caros, por profissionais mais jovens com remuneração menor. Em determinadas situações, uma política concebida para ampliar a proteção ao trabalhador pode produzir efeitos indesejados para parte dessa mesma força de trabalho.

Ao mesmo tempo, é razoável esperar que o avanço da PEC acelere investimentos em automação, softwares de gestão, autoatendimento e Inteligência Artificial. Trata-se de um movimento que já vinha ocorrendo, mas que tende a ganhar força à medida que as empresas buscam compensar o aumento dos custos operacionais. Em muitos casos, a tecnologia não elimina postos de trabalho, mas reduz a dependência de mão de obra em atividades repetitivas e permite direcionar profissionais para funções de maior valor agregado.

A adaptação, contudo, dificilmente dependerá apenas da tecnologia. As empresas também precisarão rever processos, aprimorar a gestão da produtividade e buscar modelos operacionais mais eficientes. Em alguns segmentos, estratégias comerciais capazes de distribuir melhor a demanda ao longo da semana também poderão contribuir para reduzir parte da pressão sobre os custos.

Nesse contexto, a negociação coletiva ganha relevância. Eventuais reduções de jornada tendem a produzir resultados mais consistentes quando permitem que cada segmento econômico construa soluções compatíveis com sua operação, sua capacidade financeira e sua dinâmica produtiva, em vez de adotar um modelo uniforme para realidades bastante distintas.

A escala 6×1 provavelmente precisa ser superada. A discussão sobre qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e descanso é legítima e necessária. O desafio está em construir uma transição que preserve esse objetivo sem comprometer a competitividade das empresas nem a sustentabilidade dos empregos. A forma como essa mudança será implementada terá peso decisivo para determinar se ela produzirá os resultados esperados ou criará obstáculos justamente para os setores com menor capacidade de absorver seus custos.

Fred Torrës é sócio sênior do Grupo Hub.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Fonte: Mercado&Consumo

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