Quando amar significa possuir

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Por René Dentz*

Existe uma pergunta que raramente fazemos quando ouvimos sobre mais um caso de violência contra uma mulher: em que momento o amor foi substituído pela posse?

Toda relação abusiva começa muito antes do primeiro empurrão. Ela nasce quando o outro deixa de ser reconhecido como uma pessoa livre e passa a ocupar o lugar de objeto. Controla-se a roupa, o celular, as amizades, os horários, o trabalho. Aos poucos, a liberdade torna-se suspeita e a autonomia passa a ser interpretada como ameaça. Muitos chamam isso de cuidado. Outros chamam de ciúme. Mas, quase sempre, trata-se apenas de uma forma socialmente aceita de dominação.

Uma psicanálise decolonial nos ajuda a compreender que esse fenômeno não pode ser explicado apenas pela personalidade do agressor. O sujeito violento não nasce isoladamente; ele é produzido por uma cultura que, durante séculos, ensinou homens a confundir autoridade com superioridade e amor com propriedade. A colonialidade não deixou apenas fronteiras políticas. Ela também organizou afetos, definiu quem deveria mandar, quem deveria obedecer e quais vidas seriam consideradas mais importantes.

Frantz Fanon já denunciava que toda dominação precisa penetrar a subjetividade para se perpetuar. María Lugones mostrou que a colonialidade inventou também uma hierarquia entre os gêneros. O patriarcado moderno não é apenas uma tradição antiga; ele é parte de uma lógica de poder que continua atravessando nossas famílias, nossas instituições e até nossas formas de amar.

Por isso a violência não começa no feminicídio. Ela começa quando um homem acredita que tem direito de decidir aonde sua companheira pode ir, com quem pode conversar ou como deve se vestir. Começa quando a independência feminina desperta mais indignação do que a própria violência masculina. Começa quando a sociedade ainda pergunta por que ela permaneceu naquela relação, em vez de perguntar por que ele acreditou possuir o direito de destruí-la.

A psicanálise mostra que o narcisismo transforma o outro em espelho. A filosofia nos recorda que a liberdade do outro é condição da própria ética. Paul Ricoeur afirmava que nos tornamos verdadeiramente humanos quando reconhecemos a alteridade. Quem não suporta a existência livre do outro não ama a pessoa; ama apenas a imagem que construiu dela.

Vivemos uma época curiosa. Nunca se falou tanto em liberdade individual e, paradoxalmente, nunca tantas relações foram marcadas pelo controle. Aplicativos rastreiam pessoas, senhas tornam-se exigências afetivas, localização em tempo real passa a ser prova de fidelidade. O controle foi romantizado. Chamamos de cuidado aquilo que, muitas vezes, já é violência em estado inicial.

Nenhuma lei será suficiente se continuarmos educando crianças para reproduzir relações de domínio. Meninos precisam aprender que vulnerabilidade não diminui a masculinidade. Meninas precisam crescer sabendo que respeito nunca exige submissão. Ambos precisam descobrir que amar não significa reduzir o outro às próprias necessidades emocionais.

Toda violência nasce quando alguém acredita possuir direitos sobre a liberdade de outra pessoa. O feminicídio apenas torna visível aquilo que já vinha sendo praticado silenciosamente há muito tempo.

Uma sociedade que ainda confunde amor com posse continuará produzindo relacionamentos adoecidos. O verdadeiro antídoto contra a violência não é apenas a punição. É a construção de uma cultura do reconhecimento. Porque ninguém pertence a ninguém. E somente quando compreendermos essa verdade elementar estaremos realmente aprendendo o significado da palavra amor.

* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.

“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal Hoje em Dia”.

Fonte: Hoje em Dia

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