Consulta com oftalmologista Crédito: Shutterstock
Duas pessoas podem ter a mesma idade, apresentar graus semelhantes e, ainda assim, receber recomendações diferentes para uma cirurgia ocular. Isso acontece porque o grau é apenas uma das informações consideradas antes do procedimento. A avaliação pode levar em conta características da córnea, retina, superfície ocular, astigmatismo, qualidade óptica e até a forma como cada paciente utiliza a visão no dia a dia.
Com exames de alta precisão, o planejamento passou a reunir um número maior de informações antes da escolha da estratégia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo menos 2,2 bilhões de pessoas no mundo apresentam algum comprometimento da visão de perto ou de longe. A entidade estima ainda que 94 milhões tenham deficiência visual ou cegueira associada à catarata e 826 milhões convivam com alterações de visão de perto relacionadas à presbiopia.
Para o oftalmologista Arthur van den Berg, especialista em cirurgia do cristalino e implantes de lentes intraoculares, justamente por existirem diferenças entre os olhos, idade e grau não são suficientes para determinar sozinhos qual procedimento ou lente será mais adequado.“Duas pessoas podem ter a mesma idade e praticamente o mesmo grau e, ainda assim, precisar de estratégias completamente diferentes. O grau é apenas uma das informações do planejamento”, afirma.
O que os exames mostram antes da cirurgia?
Na cirurgia do cristalino, a lente natural do olho é retirada e substituída por uma lente intraocular artificial. O procedimento é utilizado no tratamento da catarata e, em pacientes selecionados, também pode ser considerado quando o cristalino perde progressivamente sua capacidade de foco.
Como a lente implantada permanecerá no olho, a avaliação anterior à cirurgia é fundamental.A biometria ocular, por exemplo, fornece medidas utilizadas para calcular a potência da lente intraocular. Em pacientes com astigmatismo, também podem ser necessárias avaliações adicionais da córnea, como topografia ou tomografia.
Dependendo do caso, a investigação pode incluir ainda análise da retina, superfície ocular e qualidade óptica.“ O objetivo não é escolher a lente mais tecnológica, mas a tecnologia mais adequada para aquele olho e para aquele paciente. Os exames ajudam a identificar as características oculares e, a partir delas, definir qual estratégia pode ser mais compatível com as necessidades visuais daquela pessoa”, explica van den Berg.
Inteligência artificial também entra nos cálculos
A busca por maior precisão também chegou às fórmulas utilizadas para calcular a potência das lentes intraoculares.Um estudo multicêntrico publicado em 2026 na Clinical Ophthalmology avaliou 246 olhos submetidos à cirurgia de catarata e comparou diferentes métodos modernos de cálculo.Em uma das análises, uma fórmula baseada em inteligência artificial colocou 82% dos olhos dentro de uma diferença de até 0,5 dioptria em relação ao resultado previsto, enquanto a fórmula Barrett Universal II alcançou 76%.
O desempenho foi semelhante ao da fórmula Kane nos parâmetros analisados.Os próprios pesquisadores apontaram limitações, como o caráter retrospectivo do trabalho e a utilização de apenas um modelo de lente. Para o especialista, a tecnologia aumenta a quantidade de informações disponíveis, mas não substitui a avaliação médica.
“O cálculo ajuda a determinar a potência da lente, mas não responde sozinho qual solução faz mais sentido para aquela pessoa. É preciso considerar as medidas do olho, possíveis alterações oculares, expectativas e a forma como a visão é utilizada no dia a dia”, ressalta.
Rotina também influencia a escolha
A forma como o paciente usa a visão pode mudar as prioridades durante o planejamento.Uma pessoa que passa muitas horas trabalhando no computador, por exemplo, pode valorizar mais a visão intermediária. Já quem dirige frequentemente à noite pode ter outras preocupações relacionadas à qualidade visual em ambientes com pouca iluminação.
O desejo de reduzir a dependência dos óculos também precisa ser discutido de maneira específica. Ler, trabalhar diante de telas, enxergar à distância e dirigir são atividades que exigem diferentes faixas de visão. Por isso, a expectativa de “não usar mais óculos” não pode ser analisada de forma genérica. “Não existe uma lente universal. Antes de falar em independência dos óculos, é preciso entender em quais atividades essa liberdade é mais importante e se as condições do olho permitem buscar esse resultado”, afirma van den Berg.
Por que pacientes com o mesmo grau podem ter indicações diferentes?
Além da rotina, características anatômicas e condições oculares podem influenciar a escolha.
Entre os fatores avaliados estão:
- formato e características da córnea;
- presença e tipo de astigmatismo;
- condições da retina;
- superfície ocular;
- qualidade óptica do olho;
- necessidade de visão para perto, intermediária e longe;
- hábitos e atividades do paciente;
- expectativa em relação ao uso de óculos.
Assim, dois pacientes com números semelhantes na receita dos óculos podem ter condições oculares diferentes e necessidades visuais completamente distintas.
Tecnologia não substitui avaliação individual
A evolução dos exames e das fórmulas de cálculo aumentou a precisão disponível para o planejamento das cirurgias, mas a tecnologia é apenas uma parte da decisão. A análise precisa combinar os resultados dos exames com as condições clínicas e a rotina do paciente. “Cirurgia de precisão significa reunir o máximo de informações antes do procedimento para tomar uma decisão mais individualizada, considerando tanto as características do olho quanto as necessidades visuais de cada paciente”, explica o especialista.
Fonte: Jornal Correio









