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Recentemente tive o privilégio de participar do lançamento do livro Jornada das Gerações II, uma obra construída por autores de seis gerações diferentes. Ao longo dos capítulos, uma constatação se repetiu de formas distintas: o mundo mudou profundamente, a tecnologia transformou comportamentos, as expectativas das pessoas evoluíram, mas alguns princípios fundamentais continuam exatamente os mesmos. Um deles é a responsabilidade.
Essa reflexão ganhou ainda mais força quando li um artigo do IMD que resgatava uma famosa lição do Almirante William McRaven. Seu conselho para quem deseja mudar o mundo é surpreendentemente simples: comece arrumando sua própria cama.
A mensagem não tem relação com organização doméstica. Trata-se de disciplina, compromisso e responsabilidade. Trata-se de entender que grandes realizações são construídas a partir de pequenas entregas feitas com excelência, todos os dias.
Talvez não exista setor em que essa lição seja mais verdadeira do que o varejo.
O varejo é uma escola extraordinária de formação humana e profissional. Para milhões de brasileiros, ele representa o primeiro emprego, a primeira oportunidade de crescimento e o primeiro contato com responsabilidades que vão muito além da execução de tarefas.
Uma etiqueta colocada errada, um produto vencido na prateleira, um corredor desorganizado ou um atendimento indiferente parecem detalhes insignificantes. Mas quem trabalha no varejo aprende rapidamente que são justamente os detalhes que constroem ou destroem a experiência do cliente.
É nesse ambiente que convivem hoje profissionais de até quatro gerações diferentes.
Temos líderes Baby Boomers que construíram suas carreiras em uma cultura de estabilidade e comprometimento de longo prazo. Profissionais da Geração X que cresceram aprendendo a fazer mais com menos. Millennials que impulsionaram a transformação digital. E agora recebemos em nossas lojas, centros de distribuição e escritórios uma nova geração de talentos: a Geração Z.
Muito se fala sobre as características dessa geração. São jovens conectados, criativos, adaptáveis, preocupados com propósito, diversidade e equilíbrio de vida. Trazem contribuições valiosas para as organizações e ajudam a desafiar modelos ultrapassados de gestão.
Mas existe uma armadilha que precisa ser evitada.
Em uma época dominada pelas redes sociais, pela velocidade da informação e pelas histórias de sucesso instantâneo, muitos jovens chegam ao mercado acreditando que crescimento e reconhecimento devem acontecer rapidamente.
Mas quase nunca acontecem.
Toda carreira sólida possui uma fase invisível.
Uma fase de aprendizado.
Uma fase de repetição.
Uma fase em que ninguém percebe seu esforço.
Uma fase em que o trabalho não recebe aplausos nem curtidas.
É exatamente nessa fase que se constrói a credibilidade profissional.
Quando comecei minha trajetória no varejo, aprendi que não existiam atalhos para conhecer uma operação. Era preciso andar pelas lojas, conversar com clientes, entender os processos, ouvir equipes e observar detalhes. Décadas depois, continuo acreditando que os melhores líderes são aqueles que permanecem próximos da realidade do negócio.
Nenhuma Inteligência Artificial substituirá a capacidade humana de assumir responsabilidade.
Nenhuma tecnologia substituirá o cuidado, o olhar humano, o carinho com as pessoas e a empatia.
Nenhum algoritmo substituirá a atitude de quem percebe um problema e decide resolvê-lo sem esperar que alguém mande.
O futuro do trabalho exigirá competências técnicas cada vez mais sofisticadas. Mas continuará valorizando algo muito simples: pessoas confiáveis.
Pessoas que cumprem o que prometem.
Pessoas que fazem o que precisa ser feito.
Pessoas que assumem seus erros.
Pessoas que entendem que excelência não é um evento extraordinário, mas um hábito diário.
Ao mesmo tempo, seria injusto transferir toda a responsabilidade para os jovens.
As organizações também precisam fazer sua parte.
Os líderes mais experientes precisam abandonar a postura de julgamento e assumir a missão de mentorar. Precisam explicar o “porquê” das coisas, compartilhar experiências, criar oportunidades de desenvolvimento e construir pontes entre gerações.
Afinal, toda geração acredita que a próxima é menos comprometida do que ela própria. Isso aconteceu com os Baby Boomers em relação à Geração X. Com a Geração X em relação aos Millennials. E agora se repete com a Geração Z.
A diferença é que nunca convivemos simultaneamente com tantas gerações dentro das empresas.
Isso não é um problema. É uma oportunidade extraordinária.
A experiência dos mais velhos pode acelerar o aprendizado dos mais jovens. E a energia e o olhar inovador dos mais jovens podem renovar a forma de pensar das lideranças mais experientes.
Mas essa troca só acontece quando existe respeito mútuo.
E respeito nasce da responsabilidade.
O varejo brasileiro tem um papel especial nesse processo porque continua sendo uma das maiores portas de entrada para o mercado de trabalho. Todos os dias, milhares de jovens iniciam suas jornadas profissionais atrás de um caixa, em uma área de vendas, em um estoque ou em um centro de distribuição.
Ali começam muito mais do que empregos.
Ali começam carreiras.
Ali começam histórias de liderança.
Ali começam lições que acompanharão essas pessoas por toda a vida.
Por isso, talvez a mensagem mais importante que possamos transmitir às novas gerações seja simples: não procurem atalhos.
Aprendam.
Observem.
Pratiquem.
Errem.
Corrijam.
Persistam.
E façam bem as pequenas coisas.
Porque o sucesso raramente surge em grandes momentos de glória.
Ele costuma ser construído silenciosamente, um dia de cada vez, por pessoas que decidiram assumir a responsabilidade pelo trabalho que têm diante de si.
No varejo, como na vida, quem aprende a cuidar dos detalhes acaba preparado para cuidar de coisas muito maiores.
E como se diz em inglês: “Retail is detail”, adaptando para o português e pela realidade que vivi nesses anos é: “Varejo é simples, o que dificulta são os detalhes”.
Aos jovens convido para aprenderem e descobrirem as maravilhas de uma carreira no varejo, mas, se não ficarem nessa indústria, que as lideranças tenham a responsabilidade de ajudar esses jovens a “deixarem a empresa melhor do que encontraram e a saírem cidadãos melhores do que quando chegaram”.
Acredito que no posicionamento de liderança consciente, mentoria e desenvolvimento humano. Devemos evitar o discurso de confronto entre gerações e reforçar a ideia de corresponsabilidade — um conceito bastante alinhado com o Capitalismo Consciente — enquanto valorizamos o varejo como grande formador de talentos e cidadãos.
Hugo Bethlem é presidente do Capitalismo Consciente Brasil.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Fonte: Mercado&Consumo









