Crianças curadas da leucemia podem precisar tomar todas as vacinas novamente; estudo explica por quê Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Receber a notícia da cura da leucemia costuma representar o fim de uma longa batalha para crianças e suas famílias. Mas um estudo brasileiro indica que a recuperação pode exigir um último passo importante: reconstruir a proteção oferecida pelas vacinas. Publicada na revista científica Vaccines, a pesquisa concluiu que crianças e adolescentes tratados contra a leucemia linfoide aguda (LLA) podem perder parte da imunidade adquirida ao longo da infância, tornando-se novamente vulneráveis a doenças preveníveis por vacinação.
A revisão sistemática reuniu dados de 24 estudos realizados entre 1981 e 2023, envolvendo 1.110 pacientes, e identificou uma queda significativa nos níveis de proteção contra diferentes infecções após a quimioterapia. Os resultados chamam atenção principalmente para doenças como pneumonia e meningite, cujos índices de proteção ficaram entre 5% e 38% e entre 5% e 12%, respectivamente.
Em relação ao sarampo, a perda de imunidade chegou a 16%, enquanto alguns grupos analisados apresentaram proteção praticamente inexistente contra a coqueluche.Segundo a médica reumatologista, professora da Universidade de Brasília (UnB) e coautora do estudo, Licia Mota, o problema vai além da cura do câncer.”Hoje conseguimos curar a maioria das crianças com leucemia. O próximo desafio é garantir que elas retornem à vida plenamente protegidas. A revacinação não é um detalhe do tratamento. Ela faz parte da cura”, afirma.
O que acontece com o organismo após a quimioterapia?
De acordo com a pesquisadora, a quimioterapia elimina parte das células responsáveis por armazenar a chamada memória imunológica — mecanismo que permite ao organismo reconhecer rapidamente vírus e bactérias contra os quais já foi vacinado.Ela compara esse processo a uma biblioteca.
“Cada vacina funciona como um livro que ensina o sistema imunológico a combater uma doença. A quimioterapia pode retirar parte desses livros das prateleiras, fazendo com que o organismo esqueça como reagir a determinados agentes infecciosos”, explica. Outro achado do estudo mostra que, embora algumas células de defesa se recuperem rapidamente após o tratamento, aquelas responsáveis pela memória imunológica podem levar até cinco anos para voltar ao funcionamento pleno. Nesse período, a criança permanece mais vulnerável a infecções que, teoricamente, já deveriam estar controladas pelas vacinas recebidas antes do câncer.
Atenção ao retorno à escola
Segundo os pesquisadores, esse período de recuperação da imunidade merece atenção especial quando a criança volta à rotina escolar.Ambientes com grande circulação de pessoas favorecem a transmissão de vírus e bactérias, aumentando o risco para pacientes que ainda não recuperaram totalmente a proteção imunológica.
Por isso, a equipe recomenda que o planejamento vacinal comece logo após o término da quimioterapia.Além da revacinação ampla contra doenças virais e bacterianas, o estudo orienta que esses pacientes sejam encaminhados aos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), responsáveis por oferecer vacinas específicas para pessoas com condições clínicas especiais.
O que o estudo encontrou
Entre os principais resultados da pesquisa estão:
- proteção contra pneumococo (responsável por pneumonia e meningite) variando entre 5% e 38%;
- proteção contra meningite em alguns grupos inferior a 12%;
- queda da imunidade contra o sarampo, com proteção variando de 16% a 86%;
- proteção contra caxumba entre 25% e 79%;
- grupos sem proteção detectável contra coqueluche;
- redução dos níveis de anticorpos contra tétano e difteria em parte dos pacientes.
Para os autores, os resultados reforçam que encerrar o tratamento da leucemia não significa, automaticamente, recuperar toda a capacidade de defesa do organismo.A recomendação é que a revacinação passe a integrar o acompanhamento de crianças e adolescentes após a quimioterapia, garantindo um retorno mais seguro às atividades escolares e ao convívio social.
Fonte: Jornal Correio









