Foto: Agência Brasil
O resultado da primeira edição do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), que mostrou que um terço dos cursos de medicina avaliados teve desempenho insatisfatório, não surpreendeu médicos e gestores de saúde.
Para eles, o exame apenas confirmou um problema que já vem sendo observado na prática: a formação deficiente de parte dos novos médicos tem elevado o risco aos pacientes e aumentado o desperdício de recursos dentro dos serviços de saúde.
“Esse profissional pede exames errados, faz prescrições inadequadas e muitas vezes indica procedimentos desnecessários. Além de jogar dinheiro fora, ele causa dano ao paciente e aumenta o risco de processos contra os hospitais”, diz Francisco Balestrin, presidente do Sindhosp, sindicato paulista dos hospitais, clínicas e laboratórios privados.
A dificuldade é sentida especialmente nos serviços de emergência, em que há maior dificuldade de contratação de médicos preparados.
“Onde deveriam estar os melhores, estão os mais frágeis. Há muita rotatividade e falhas básicas de formação. Os hospitais acabam tendo que treinar esses médicos depois de contratados, algo que instituições médias e pequenas não conseguem bancar”, diz Balestrin.
Esse movimento tem impulsionado empresas de ensino médico voltadas ao treinamento pós-formação. “Cursos para se transformar em algo que eles deveriam ter saído da escola para fazer, e não saem”, afirma.
O diagnóstico é compartilhado por Antônio Britto, diretor-executivo da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados). Segundo ele, os hospitais de excelência estão tendo que “corrigir o que não foi ensinado”, ou seja, preparar a mão de obra após a contratação.
“A maior contratação é para plantões e emergências. E é exatamente aí que a falta de qualificação é mais grave. O profissional começa [a carreira] pelo mais crítico, na emergência, quando deveria estar no fim da carreira.”
Nesses setores, segundo ele, há uma rotatividade grande dos plantonistas, o que prejudicaria a continuidade de treinamentos.
Segundo Antonio José Gonçalves, presidente da APM (Associação Paulista de Medicina), há relatos de médicos recém-formados que não sabem executar procedimentos essenciais, como intubação ou passagem de cateter central. “Se uma insuficiência respiratória não é resolvida em cinco minutos, o paciente pode sofrer lesão cerebral irreversível.”
Gonçalves afirma ainda que as denúncias de má prática médica dispararam no Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). “Isso mostra que a população já está sofrendo as consequências dessa formação deficiente.” Procurado, o Cremesp informou que o aumento nos últimos dois anos, comparado ao biênio anterior, é de cerca de 30%.
José Antonio Rodrigues Alves, vice-presidente do Ibross (Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde) e provedor da Santa Casa da Bahia, diz que tem sido um desafio para os hospitais selecionar profissionais qualificados, especialmente aquelas instituições que não têm estrutura de hospital-escola.
Para ele, a crise de financiamento na saúde e a desvalorização dos honorários médicos levam instituições públicas e privadas a optar por profissionais mais baratos, o que compromete a assistência. “É o pior dos mundos”, afirma.
Como saída, ele defende o fortalecimento das certificações hospitalares e da adoção de protocolos de qualidade. “Isso faz com que outros profissionais acabem cobrando do profissional médico um outro tipo de atitude.” Esse processo, diz dele, melhora a governança clínica e ajuda a elevar o padrão do atendimento.
O dirigente também propõe que o Ministério da Saúde e a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) avancem para um modelo de divulgação de indicadores assistenciais. Ele acredita que isso permitiria avaliar melhor a qualidade dos hospitais, assim como o Enamed avalia as faculdades de medicina.
Na opinião dos especialistas, o Enamed e um exame de proficiência nacional, como propõe o CFM, deveriam coexistir. “A residência médica não consegue absorver todos os egressos. Hoje temos 40 mil formados por ano e apenas 20 mil vagas de residência”, diz Alves.
Alexandre Holthausen Campos, diretor de ensino da Faculdade Israelita Albert Einstein, afirma que o problema da qualidade do ensino médico não se resolve apenas com provas teóricas.
“A formação médica terminal tem um padrão ouro que é a residência médica. O Brasil criou um número enorme de escolas sem ampliar as vagas de residência. Assim, muitos alunos saem da faculdade e vão direto para o mercado, sem estar prontos.”
Campos afirma que o caminho passa por melhorar os cursos e ampliar as residências médicas em hospitais públicos de qualidade. “Não se trata um problema complexo com uma resposta simples. Precisamos de boa graduação e boa residência. A teoria sem a prática é vazia, e a prática sem a teoria é perigosa.”
Ele defende que a qualidade de um curso de medicina depende de múltiplos fatores, como qualidade do aluno, do professor, do currículo, do método de ensino, da avaliação, da pesquisa e da supervisão prática.
Para Campos, é necessário um acompanhamento individualizado do estudante ao longo dos seis anos para garantir que a graduação entregue profissionais aptos ao mercado.
FACULDADES CRITICAM DIVULGAÇÃO E CONTESTAM DADOS
A realização do Enamed causou polêmica no setor educacional e foi questionada na Justiça.
A Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares) tentou barrar a divulgação dos dados desta segunda, mas o Judiciário não aceitou o pedido.
Dentre outras coisas, a entidade questionou o tempo que as instituições de ensino tiveram para preparar os alunos para o teste. Também critica, por esse motivo, as possíveis punições que as universidades podem sofrer em razão de notas baixas, além de danos reputacionais.
Fonte: Bahia Notícias









