Por Gregório José
Há uma revelação elegante circulando por aí. Não veio de um guru de rede social nem de um coach empolgado. Veio da ciência. E ela diz algo quase poético. Ter propósito na vida pode reduzir em quase 30% o risco de desenvolver demência.
Parece frase de calendário motivacional. Mas não é.
Se existisse um liquidificador de cérebro que misturasse aquela ironia deliciosa do Jô Soares com a sinceridade incômoda de Nelson Rodrigues, o resultado seria mais ou menos o que este estudo científico tenta nos dizer hoje. A vida com propósito pode até parecer um conselho de autoajuda barato, daqueles que a gente ouve na fila do pão, mas a ciência agora confirma que há mais nessa conversa do que um meme de redes sociais. Pessoas que conseguem olhar para a frente, criar metas e sentir que sua história tem algum significado parecem reduzir o risco de sofrer demência em quase 30% ao longo dos anos.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, com base em dados de longo prazo acompanhando milhares de adultos mais velhos. Os resultados foram divulgados pela Agência Einstein e publicados em periódico científico internacional da área de envelhecimento e saúde mental. A pesquisa analisou a relação entre sensação de propósito e o declínio cognitivo ao longo dos anos.
Traduzindo para o português claro. Pessoas que acordam com um motivo, que sentem que ainda têm algo a realizar, apresentar ou compartilhar, demonstraram menor probabilidade de desenvolver quadros de demência.
Não estamos falando de pensamento mágico. Estamos falando de estatística robusta. Os cientistas acompanharam adultos por anos, cruzaram dados, controlaram variáveis como idade, escolaridade e condições de saúde. No fim, o resultado foi consistente. Quem relata ter um senso claro de propósito apresentou risco significativamente menor de declínio cognitivo.
Agora imagine a cena cotidiana. Aquele senhor que decidiu aprender violão aos 70. A senhora que começou a fazer trabalho voluntário depois da aposentadoria. O avô que virou contador oficial de histórias da família. Talvez todos eles, sem saber, estejam exercitando mais do que o coração. Estão blindando o cérebro.
Demência não é um simples lapso. É uma erosão lenta da identidade. É esquecer o nome do neto. É perder a referência do próprio passado. É a memória se dissolvendo como açúcar na água.
E no meio dessa tragédia silenciosa surge algo quase despretensioso. Ter propósito. Não precisa ser grandioso. Não precisa ganhar prêmio. Basta fazer sentido para quem vive.
O estudo reforça uma ideia que soa antiga e moderna ao mesmo tempo. O cérebro gosta de desafio, de vínculo, de direção. Ele não foi feito para a inércia. Ele responde a estímulo, a planejamento, a expectativa.
Há algo profundamente humano nisso. A ciência, fria e metódica, confirmando o que os poetas sempre insinuaram. Vida vazia cobra juros altos. Vida com significado rende dividendos invisíveis.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja quantos anos vamos viver. Talvez seja por que estamos vivendo.
E essa resposta, segundo os pesquisadores, pode ser decisiva para que nossas memórias permaneçam conosco até o último capítulo.
* Jornalista/Radialista/Filósofo
Pós Graduado em Gestão Escolar
Pós Graduado em Ciências Políticas
Pós Graduado em Mediação e Conciliação
MBA em Gestão
“Este texto não reflete, necessariamente, a opinião”
Fonte: Hoje em Dia









